
“ Metade de mim delira; metade de mim pondera ”, já dizia o Pessoa ...Aprendi o silêncio, quando comecei a escrever...Adorava delirar com ele. Eu caminhava ao seu lado, em segredo.Não fazia nem frio nem calor. Era a estação do indefinido, onde nada começaria nem terminaria, tudo era apenas uma possibilidade trazida, diariamente, em pequenas gentilezas outonais...Era noite, daquelas em que, para uma poeta torta como eu, “qualquer ganido seria um bom pretexto", concordava com o Baleiro totalmente, pretexto para não dormir e pular a ‘janela do contexto’. Éramos anjos da solitária falange vermelha que habitava as madrugadas insones. Vivia assim, entre a multidão e a solidão que se misturavam. Em meio ao tumulto, sugava os detalhes escondidos por trás das máscaras, por entre as frestas dos olhos, observava secretamente com meu olhar permeável o que aqueles rostos diziam, disfarçados em sorrisos, tentando engolir a vida a qualquer custo, como um comprimido que pudesse, de repente, curar o vazio da vida pós-moderna, trazendo de volta uma mínima possibilidade de encontro, antes que tudo se transformasse em póstumas memórias.., e, como ‘ghost’, fôssemos para o outro lado da vida sem ter vivido quase nada ...transformando o ‘céu’ num verdadeiro ‘inferninho’...Não, o melhor era arder no fogo do inferno aqui mesmo, o que acredito, esse inferno de nós mesmos...Então, atirava-me nos corredores escuros da noite, camuflada, numa espécie de camaleoa ou serpente, deslizando sorrateiramente entre os circula(dores) em torno daqueles habitantes da mais densa camada do dia e a mais instigante...Ouvia seus gritos represados e seus gozos roubados, tentava decifrar enigmas, suas esfinges secretas, o que não diziam, mas escapavapelos poros, e o meu faro captava, enviando sinais aos neurônios,que, excitados, transformavam todas aquelas sensações em delírios, derramados em páginas brancas, que logo tornavam-se lugares exóticos, eróticos, e , outras vezes, abismos profundos, onde cabiam todas as dores do mundo, inclusive as minhas, pois era drummondiana por natureza...A solidão era o meu cigarro, ficava a observar a fumaça, que lentamente, começava a ganhar forma, cores, texturas... No silêncio, fecundava todas as sensações absorvidas e deixava a gestação acontecer, até parir meus personagens e seus dramas que se misturavam aos meus, tão intensamente, que, muitas vezes, sentia-me dissolvida na trama, dialogando com eles, e até sonhando com o destino de cada um, como se quisesse achar a minha própria saída ali, num insight, no meio de uma ficção nada científica, completamente anti-cartesiana, onde os eixos perpendiculares pareciam mais paralelos, vidas que caminhavam juntas, mas não se tocavam ...ou ‘quase’ não se tocavam ..., abcissas des(ordenadas), sem achar o ‘x’ da questão... E foi assim que o conheci, no meio de uma história que se diluía na minha, numa espécie de 'déjà vu ', pois tudo parecia-me muito peculiar, como se eu já soubesse o seu ponto fraco, sua vulnerabilidade física e emocional, e ele, a minha...Suas palavras circulavam por dentro de mim provocando ondas e me fazendo rir, como em um orgasmo solto e profundo, mais real que a própria realidade, e eu, flor de lótus azul, me abria em tons vermelhos intensos e derramava sobre ele meu néctar perolado, nessa dimensão invisível aos outros, e tão intensa para nós... Nas entrelinhas, nascia uma outra história, um universo paralelo, não à base de êxtasy, mas induzido por uma outra espécie de alucinógeno, a imaginação, ‘santo daime’ que ia abrindo passagens secretas no nosso subconsciente e nos revelando a nós mesmos...Era um lugar onde tudo poderia acontecer, sem preconceitos, sem julgamentos, sem sequer nosso consentimento, porque quando a imaginação transborda, nada é capaz de deter essa torrente...Existiam tão poucas diversões que não fossem culposas, que ter esse lugar suspenso, fora do tempo, mas tão vivo e presente nos dias que corriam como corcéis indomáveis, era algo fascinante, sem as paranóias que cercavam as relações no mundo dito ‘real’... Real ? Mas aquelas sensações eram verdadeiras, uma verdade inventada, talvez, contudo era real na mente, na emoção e, até mesmo, na carne..., aliás, principalmente...Somente os poetas ou escritores conseguiriam penetrar as camadas da imaginação de forma tão intensa, a ponto de gozarem todas as sensações físicas que aconteciam, por uma espécie de magia que as letras possuíam, um encantamento, uma bruxaria...Sim, palavras são mágicas, transportam-nos para fora e para dentro, e nós estávamos bem no meio, ’entre’, completamente envolvidos por elas, como amantes, em profundo estado ‘gozozo’....Um ‘ à trois ’ inusitado! À flor da pele das palavras tudo ficava mais ardente! Elas eram nossas mãos, nossos olhos, nossos ouvidos, nossa boca, nossa língua, nossa saliva ...e toda emoção silenciosamente consentida em sussurros derramados no papel...Contudo, sabia que as palavras também mentem, fingem, teria que virá-las pelo avesso, de vez em quando, para poder ver o que estava por trás, descobrir o denotativo no conotativo, entende?‘Tudo que vemos à luz do sol é bem menos atraente do que vemos por trás de uma vidraça’, ...do véu das palavras que se escondem na caverna da mente; à medida que a emoção avança, a luz vai surgindo,o sonho vai ganhando vida...um risco envolvente... É na mais completa escuridão que acontecem as grandes aventuras, na calada da noite, onde todas as coisas se calam, e a imaginação despertafaminta..., uivando feito uma loba, no ma(cio) da madrugada...Uma escuridão acesa! A entrada e a saída do nosso próprio labirinto...Quando pensava nele, não pensava no que ele era ou de onde ele vinha, essa realidade não me interessava, o que me importava era a alma, e como falava o Pessoa, as palavras têm alma, então, mergulhados nelas, decifrávamo-nos nos sussurros que vinham das entrelinhas e eletrizavam tudo...Quando pensava nele, pensava no seu cheiro, no seu gosto, na sua pele em contato com a minha,nessa con (fusão) dos sentidos, e essas coisas eram mais reais que qualquer detalhe de sua vida pessoal, eram elas que me tocavam e me acendiam nas longas noites, com a imaginação a mil pés da superfície da realidade concreta. Concreta? Ora bolas, toda realidade é concreta, mas não igual para todos...Para nós poetas, escritores, o real se expande sem limites, no infinito do nosso subconsciente, como um Deus...Deus existe? Para uns, sim; para outros, não.O mesmo acontecia em relação às questões acerca do que era real ou não...Poderia ser que tudo não passasse de um efeito placebo, mas era essa dosagem diária de delírio que me salvava de me tornar uma típica mulher pós-moderna, mais irreal que meus personagens ,pois ela seria fria, de pedra, qualquer coisa entre um iceberg e um céu de chumbo...Já em minhas histórias, eu poderia ser tudo, ser várias, e, em alguma delas, talvez, me achar...ou não..., caetaneando..., e sair da história quando quisesse, quando as palavras me traíssem...E à medida que a trama acontecia, ‘um pouco mais de possível, a cada instante, se tornava real’, uma verdade aristotélica, mas nunca totalmente real, estávamos sempre à beira, para que nunca deixássemos de buscar..., para soprar o desejo no infinito..., éramos cúmplices, consumidos, por livre-arbítrio, pelas palavras em chamas...,o fogo que movia a grande roda da vida e formava vórtices de pura emoção nas invisíveis trilhas ...E nós nos permitíamos queimar,arder, sem medo, até que elas se tornassem, mesmo só sendo meras palavras,uma real ilusão, aí seria hora de paralisar o vôo e pousar, refazendo a trama... Agora, preparo um cálice de vinho tinto suave e aguardo, na embriaguês da razão, que a lucidez do espírito (intocável, mas real) aponte o rumo dessa minha história, eu disse ‘o rumo', não o fim, porque tudo é passagem....eterna viagem....E na bagagem levarei somente meus delírios, e, com certeza, menos prozac ...E por falar em viagem, preciso de uma trilha sonora bem delirante, e nada melhor que a Janis com seu 'Kozmic Blues' rasgando o silêncio, expandindo a imaginação, criando as cenas dos próximos capítulos...'Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando... Até que não caibo em mim e estouro em palavras', clariceanamente eu vôo...E mentalizo:'Vem, me dê um beijo meu amor, só eu vejo o mundo com meus olhos...' em néons azuis...‘Tudo que se vê prá que crer Tudo que se crê pra que ter Tudo que se tem prá quem?’Afinal, ‘a alma é o segredo do negócio’ ..."E, eu digo calma, alma minha, calminha, você tem muito o que aprender..."*********************************************************
sobre a obra
Sobre processos criativos...Pura ficção...Não confundam o criador com a criatura...''Metade de mim delira, Metade de mim pondera, Metade de mim se prosta, Metade de mim gargalha.....'( Fernando Pessoa )*********'...Uma parte de mim é multidão:outra parte estranheza e solidão.Uma parte de mim pesa, pondera:outra parte delira....'(Ferreira Gullar)
Autoria Raiblue
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